A vida militar de Santo Antônio de Lisboa

A jornada de Santo Antônio de Lisboa não se limitou aos altares e pregações. Surpreendentemente, o santo também teve uma simbólica carreira militar, incorporada ao Exército Português em um ato de fé e reconhecimento. Este curioso capítulo de sua história revela como a devoção popular e o apoio régio transformaram-no em um símbolo de proteção nas batalhas, concedendo-lhe patentes e honras militares ao longo dos séculos.

Promoção a Major pelo Príncipe Regente D. João de Bragança

A devoção do povo ao Santo Antônio de Lisboa foi um fator determinante em sua elevação ao posto de Major (sargento-mor). Em 14 de julho de 1810, diante da primeira invasão napoleônica, o Príncipe Regente de Portugal, D. João de Bragança, que havia fugido para o Brasil em 1807, reconheceu o fervor popular e a fé no santo, promovendo-o a Major. Este decreto real destacou a importância da intercessão de Santo Antônio nas vitórias militares, acreditando que sua proteção divina seria fundamental para a restauração da monarquia. O decreto enfatizava que seu soldo deveria ser pago integralmente, reforçando a relação entre a fé do povo e as decisões militares e políticas da época.

A importância do decreto real de 1810

O decreto real de 1810 não apenas reconheceu a devoção do povo ao Santo Antônio, mas também solidificou sua posição como uma figura militar simbólica. Emitido pelo Príncipe Regente, o decreto especificava que Santo Antônio deveria ser promovido a Major e que seus soldos seriam pagos pela Tesouraria Real, sem qualquer dedução. Este ato mostrou como a monarquia portuguesa utilizava a fé religiosa para fortalecer o moral das tropas e da população, especialmente durante tempos de crise como as invasões napoleônicas. A publicação do decreto, mesmo antes da notícia da vitória sobre os franceses, demonstrou a confiança do governo na proteção celestial do santo.

A promoção a Tenente-Coronel e o impacto na devoção popular

Com a vitória sobre Napoleão Bonaparte em 1814, D. João VI quis celebrar os feitos do exército português e, em 26 de junho daquele ano, promoveu Santo Antônio a Tenente-Coronel. Este novo título refletia não apenas o agradecimento pelas vitórias alcançadas, mas também o fortalecimento da devoção popular ao santo, que se tornou um símbolo de proteção e esperança. O decreto real de promoção destacava a crença na intercessão de Santo Antônio como fator crucial para os sucessos militares. Assim, o santo continuou a ser venerado e sua imagem perpetuada, consolidando sua importância na cultura e na fé do povo português.

A separação da Igreja e do Estado e o fim dos soldos

Com a Proclamação da República em 1889, houve a separação entre a Igreja e o Estado, o que impactou diretamente os benefícios religiosos, incluindo os soldos de Santo Antônio. O Decreto nº 119-A de 7 de janeiro de 1890 formalizou essa separação, cessando oficialmente os pagamentos. No entanto, a devoção ao santo permaneceu forte, e em 1923 o guardião do Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro solicitou o pagamento dos soldos atrasados. A resposta do Consultor-Geral da República foi negativa, citando a Constituição, que proibia subvenções oficiais a qualquer culto. Mesmo sem os benefícios financeiros e com a patente militar cassada, Santo Antônio continuou a ser uma figura venerada, com sua devoção se manifestando em milhares de devotos, ruas, praças e cidades que levam seu nome.

Sobre marcelo barros

Jornalista (MTB 38082/RJ). Graduado em Sistemas de Informação pela Estácio de Sá (2009). Pós-graduado em Assessoria de Comunicação (UNIALPHAVILLE), MBA em Jornalismo Digital (UNIALPHAVILLE), Administração de Banco de Dados (UNESA), pós-graduado em Gestão da Tecnologia da Informação e Comunicação (UCAM) e MBA em Gestão de Projetos e Processos (UCAM). Atualmente é o vice-presidente do Instituto de Defesa Cibernética (www.idciber.org), editor-chefe do Defesa em Foco (www.defesaemfoco.com.br), revista eletrônica especializado em Defesa e Segurança, co-fundador do portal DCiber.org (www.dciber.org), especializado em Defesa Cibernética. Participo também como pesquisador voluntário no Laboratório de Simulações e Cenários (LSC) da Escola de Guerra Naval (EGN) nos subgrupos de Cibersegurança, Internet das Coisas e Inteligência Artificial. Especializações em Inteligência e Contrainteligência na ABEIC, Ciclo de Estudos Estratégicos de Defesa na ESG, Curso Avançado em Jogos de Guerra, Curso de Extensão em Defesa Nacional na ESD, entre outros. Atuo também como responsável da parte da tecnologia da informação do Projeto Radar (www.projetoradar.com.br), do Grupo Economia do Mar (www.grupoeconomiadomar.com.br) e Observatório de Políticas do Mar (www.observatoriopoliticasmar.com.br) ; e sócio da Editora Alpheratz (www.alpheratz.com.br).

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