Um Boeing B-17 brasileiro sobrevoa o destróier francês Tartu (D636). Domínio Público - Wikimedia

GUERRA DA LAGOSTA: UMA ANÁLISE DETALHADA DO CONFLITO BRASIL-FRANÇA (1961-1963)

A Guerra da Lagosta foi um conflito diplomático e militar entre Brasil e França, ocorrido entre 1961 e 1963. Este artigo examina detalhadamente as causas, os eventos e as consequências deste incidente, destacando sua importância nas relações internacionais e na política de defesa brasileira.

Contexto Histórico

A Crise da Pesca da Lagosta

No início da década de 1960, a França enfrentava uma crise na pesca de lagostas devido à perda de suas colônias africanas, como a Mauritânia, que eram fontes importantes de recursos marinhos (ANDRADE, 2023). Isso levou os pescadores franceses a explorarem novas áreas, incluindo o litoral nordestino do Brasil.

Interesse Francês no Nordeste Brasileiro

Pescadores do porto de Camaret, na França, direcionaram suas atividades para o Nordeste brasileiro, devido à abundância de lagostas na região. Em março de 1961, após negociações, o governo brasileiro permitiu a entrada de três embarcações francesas para pesquisas, com a presença de fiscais da Marinha brasileira. No entanto, os franceses excederam o número permitido e iniciaram uma pesca desenfreada (POGGIO, 2016).

Batalha Diplomática

Apreensões e Tensão Crescente

Em 1962, as tensões aumentaram quando a corveta brasileira Ipiranga apreendeu o pesqueiro francês Cassiopée. A França, baseando-se na Convenção de Genebra de 1958, argumentava que a lagosta era um peixe devido ao seu modo de locomoção, enquanto o Brasil sustentava que a lagosta era um recurso da plataforma continental brasileira (NETO, 2021).

Resposta Brasileira e Francesa

O almirante brasileiro Arnoldo Toscano mobilizou a Marinha para expulsar os pesqueiros franceses. Em resposta, o presidente francês Charles de Gaulle enviou uma frota incluindo o porta-aviões Clemenceau para proteger os pescadores franceses, intensificando o conflito (LOBATO, 2021).

O Incidente no Atlântico

Navios de guerra brasileiros fotografados durante o conflito – Domínio Público – Wikimedia

Mobilização de Forças

Em fevereiro de 1963, a Força-Tarefa francesa, liderada pelo Clemenceau, deslocou-se para o Atlântico. A Marinha Brasileira mobilizou-se rapidamente, com destaque para os bombardeiros B-17 da Força Aérea Brasileira, que monitoraram a movimentação do contratorpedeiro francês Tartu (POGGIO, 2016).

Encontro e Desfecho

O confronto direto foi evitado graças à pressão diplomática dos Estados Unidos e da ONU. Em março de 1963, as embarcações francesas recuaram. A resolução pacífica veio somente em 1964, com um acordo que permitia a pesca de lagosta por navios franceses, sob condições específicas (FOCO, 2020).

Consequências e Impactos

Expansão das Águas Territoriais Brasileiras

O conflito resultou na extensão das águas territoriais brasileiras para 200 milhas náuticas, consolidando a soberania nacional sobre os recursos marinhos (BRAGA, 2009).

Lições Aprendidas

A Guerra da Lagosta destacou a importância da defesa marítima e da presença naval para a proteção dos recursos naturais, influenciando a política de defesa brasileira nas décadas seguintes (MUNIZ, 2013).

Conclusão

A Guerra da Lagosta foi um episódio marcante na história das relações internacionais do Brasil, demonstrando a complexidade das disputas por recursos naturais e a importância da diplomacia e da força militar na resolução de conflitos. Este evento reforçou a necessidade de uma marinha forte e preparada, além de estabelecer precedentes importantes para a soberania nacional sobre as águas territoriais.

Referências

  • ANDRADE, A. L. M. S. Colonização francesa na África. InfoEscola, 2023.
  • BRAGA, C. da C. A Guerra da Lagosta. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 2004.
  • LOBATO, R. Como um crustáceo quase mergulhou a América do Sul no maior conflito desde a Guerra do Paraguai. Aventuras na História, 2021.
  • MUNIZ, T. de S. A “Guerra da Lagosta”: um Laboratório para o Golpe Militar de 1964. Brasiliana – Journal for Brazilian Studies, 2013.
  • NETO, W. C. Guerra da Lagosta: uma análise das relações civis-militares. 2021.
  • POGGIO, G. A Guerra da Lagosta e suas lições. Poder Naval, 2016.
  • BARROS, M. A. A Guerra da Lagosta – Brasil contra França pelos Crustáceos. Defesa em Foco, 2020.

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Sobre marcelo barros

Jornalista (MTB 38082/RJ). Graduado em Sistemas de Informação pela Estácio de Sá (2009). Pós-graduado em Assessoria de Comunicação (UNIALPHAVILLE), MBA em Jornalismo Digital (UNIALPHAVILLE), Administração de Banco de Dados (UNESA), pós-graduado em Gestão da Tecnologia da Informação e Comunicação (UCAM) e MBA em Gestão de Projetos e Processos (UCAM). Atualmente é o vice-presidente do Instituto de Defesa Cibernética (www.idciber.org), editor-chefe do Defesa em Foco (www.defesaemfoco.com.br), revista eletrônica especializado em Defesa e Segurança, co-fundador do portal DCiber.org (www.dciber.org), especializado em Defesa Cibernética. Participo também como pesquisador voluntário no Laboratório de Simulações e Cenários (LSC) da Escola de Guerra Naval (EGN) nos subgrupos de Cibersegurança, Internet das Coisas e Inteligência Artificial. Especializações em Inteligência e Contrainteligência na ABEIC, Ciclo de Estudos Estratégicos de Defesa na ESG, Curso Avançado em Jogos de Guerra, Curso de Extensão em Defesa Nacional na ESD, entre outros. Atuo também como responsável da parte da tecnologia da informação do Projeto Radar (www.projetoradar.com.br), do Grupo Economia do Mar (www.grupoeconomiadomar.com.br) e Observatório de Políticas do Mar (www.observatoriopoliticasmar.com.br) ; e sócio da Editora Alpheratz (www.alpheratz.com.br).

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